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Prémio Rafael Manzano
2026
Um dos aspectos mais marcantes do seu percurso é a sua ligação a Arcos de Valdevez, na região do Alto Minho, onde nasceu e onde a sua relação com a arquitectura e a paisagem remonta à pequena aldeia da sua infância. Nesta região, tem desenvolvido um importante trabalho de recuperação do património arquitectónico e de promoção da cultura local. A sua actividade ultrapassa o exercício da profissão e estende-se à organização de encontros, oficinas e outras iniciativas que reúnem arquitectos, investigadores, artesãos, instituições e habitantes da região. Este compromisso com o estudo das diferentes culturas construtivas levou-o primeiro a frequentar a Escola de Verão Ibérica da Fundación Culturas Constructivas Tradicionales e, anos mais tarde, a integrar a equipa docente das suas edições mais recentes.
A obra de Fernando Cerqueira Barros parte de um conhecimento profundo do ambiente construído e do saber-fazer próprio de cada lugar. O seu método de trabalho atribui especial importância ao estudo directo das construções da envolvente, ao desenho e à análise da relação com o território. As suas intervenções procuram recuperar e dar continuidade aos princípios que moldaram a arquitectura local, tanto na reabilitação do património como na concepção de novas arquitecturas adaptadas às necessidades contemporâneas. Deste modo, as novas intervenções integram-se naturalmente nas construções existentes e contribuem para preservar a paisagem e o carácter arquitectónico próprios de cada lugar.
Em pouco mais de quinze anos de percurso profissional, Fernando Cerqueira Barros realizou numerosos projectos de reabilitação e recuperação patrimonial. Entre as suas obras mais destacadas encontra-se a reabilitação do Mosteiro de São João de Cabanas, em Afife, Viana do Castelo, para instalação de uma unidade hoteleira. Este antigo conjunto beneditino de origem medieval recuperou a sua integridade arquitectónica graças a esta intervenção, que recebeu o Prémio Nacional de Arquitectura Espaço 2025, na categoria de Reabilitação Arquitectónica. Outros projectos, como a recuperação da Quinta de Fundevila, em Cabeceiras de Basto, ou as suas intervenções em habitações rurais em Penacova, Morilhões e Santo Tirso, demonstram a sua atenção à arquitectura vernácula e a sua capacidade para dar nova vida a construções que tinham perdido a sua função original. Nestas obras, a recuperação dos diferentes espaços permite também preservar a memória de quem os habitou e manter a sua ligação às gerações actuais. O seu trabalho abrange igualmente a reabilitação de edifícios monumentais e urbanos, como a Igreja do Convento de Vila Cova de Alva, a Igreja de Nossa Senhora do Pópulo e o edifício Chave D’Ouro, em Arcos de Valdevez.
Um aspecto fundamental da sua obra é a estreita colaboração que mantém com os mestres dos ofícios da construção. Canteiros, carpinteiros, pedreiros, estucadores e outros artesãos participam activamente nos seus projectos, numa relação que assenta numa presença constante nas obras. As suas intervenções contribuem, assim, para manter a actividade destes profissionais, favorecer a transmissão dos conhecimentos associados a estes ofícios e demonstrar a actualidade dos materiais e dos sistemas construtivos tradicionais.
Esta relação com os ofícios insere-se num compromisso mais amplo com as comunidades locais e com a conservação do seu património material e imaterial. Um dos exemplos mais representativos é o projecto de recuperação das eiras, dos canastros e dos espigueiros de Vilarinho do Souto, em Arcos de Valdevez, uma iniciativa de reconstrução comunitária que contribuiu para reforçar os laços da comunidade com o seu património e recuperar conhecimentos em risco de desaparecimento.
A sua actividade profissional é complementada por um importante trabalho de investigação e divulgação da arquitectura tradicional. É doutorando na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, investigador no seu Centro de Estudos de Arquitectura e Urbanismo e membro de uma Cátedra UNESCO. Tem participado em numerosas iniciativas dedicadas ao estudo e à transmissão das culturas construtivas da Península Ibérica, entre as quais se incluem as actividades da Rede Horrea. O seu contributo para esta área tem sido distinguido com diversos reconhecimentos, entre eles o Prémio Cantapaxarín 2025, atribuído pela Asociación del Hórreo Asturiano.
O percurso de Fernando Cerqueira Barros demonstra que a continuidade da arquitectura tradicional depende tanto do conhecimento das suas formas, materiais e técnicas como da preservação dos laços que a unem às comunidades que a criaram e mantiveram ao longo do tempo. A sua abordagem às intervenções procura fazer com que as transformações necessárias para adaptar os edifícios aos modos de vida contemporâneos constituam mais uma etapa da história de cada um deles, sem se sobreporem às anteriores. O seu trabalho, em que a prática arquitectónica se articula com a investigação e o compromisso com as comunidades locais, demonstra a actualidade das tradições construtivas como fundamento de uma arquitectura contemporânea que mantém a continuidade com a cultura, o ambiente construído e a paisagem de cada região.